P — Poesia:
Ler poesia pra quê?
Por muito tempo, desde as minhas primeiras leituras de
poesia que respondo a esse tipo de questão do título. Com o passar do tempo,
treinei minha mente a esquecer esse tipo de tautologia e passei a responder com
dois textos, antes de argumentar que, caia chuva ou faça sol (neve, então,
ainda mais!) continuarei lendo poesia. O primeiro é do filósofo
tcheco-brasileiro Vilém Flusser e o segundo, do alemão Martin Heidegger
(falando sobre a poesia em geral e, especificamente, sobre a poesia de Hölderlin,1940-1960).
Volto comentando depois, se mais houvesse pra dizer.
I
“Nem sempre estamos cientes do que devemos à poesia, no
sentido lato da palavra: quase tudo que percebemos e vivenciamos. Fazer poesia
é a produção de modelos de experiência, e sem tais modelos não poderíamos
perceber quase nada”. Ficaríamos anestesiados e teríamos de – submetidos aos
nossos instintos atrofiados – cambalear cegos, surdos e insensíveis. Os poetas
são nossos órgãos do sentido. Nós vemos, ouvimos, sentimos sabores e cheiros
devido aos modelos que nos são apresentados pelos poetas. Nós percebemos o
mundo por meio desses modelos.
“Os poetas criaram esses modelos e não os imitaram a partir
daquilo que se encontrasse desmodelado e bruto em algum lugar. Quando vemos
cores, seja por meio de Van Gogh ou de uma Kodak; [atenção, leitor, que Vilém
Flusser ainda atualíssimo em 1987] quando ouvimos sons, seja o de Bach ou de um
rock; quando sentimos sabores, seja o de um Brillat-Savarin ou de um fast-food;
essas cores, sons e sabores são como são não porque vêm da Natureza assim, mas
porque são culturais, isto é, porque foram poeticamente elaborados por um
motivo fundamental de alguma forma não percebido naturalmente. Se tentássemos
escrever uma história da percepção a partir da hipótese de que as cores são
percebidas de maneira diferente antes e depois de Van Gogh, ela seria uma
história da estética, da experiência.” (Vilém Flusser).
II
“A poesia é o nomear que institui o ser e a essência de
todas as coisas, não um dizer qualquer, mas aquele graças ao qual apenas se
mostra à abertura tudo o que nós depois discutimos e tratamos na linguagem de
todos os dias. Por isso, a poesia não toma jamais a linguagem como um material
já presente, mas é somente a poesia mesma a tornar possível a linguagem. A
poesia originária de um povo histórico. E, portanto, vice-versa, a essência da
linguagem que será compreendida a partir da essência da poesia” (Martin
Heidegger, 1889-1976).
O que dizer depois desses dois pensamentos fundantes? O uso
da poesia parece ser posto no terreno da inutilidade cotidiana diante de um
mundo que já passou pelo Holocausto e pelo terrorismo de âmbito mundial movido
pelo fanatismo religioso.
Porém, é a poesia também tábua de salvação para muitos
homens e mulheres que olham o mundo e diante dele se sentem sem rumo, sem
solução diante do problema do ser e do Tempo. É preciso convocar um poeta e não
um filósofo para me ajudar a responder pelo atestado de vida da poesia.
A poesia é a mais condensada forma de expressão verbal,
afirma Ezra Pound. Devemos aprender que a poesia antecede ao poema e este (como
a boa prosa) pode se basear numa das três saídas: fanopeia, melopeia ou
logopeia. Qualquer dos caminhos tomados pode levar o poeta (ou prosador) a bons
e maus resultados.
Uma contradição do mundo atual foi apontada pela professora
Goiandira Ortiz: “a literatura, especialmente a poesia, exige um modo de ler
que o contexto atual dificulta com sua velocidade de comunicação, de apelos
visuais e ruídos, jogando o sujeito para fora de si, não permitindo tempo
espaço para uma disponibilidade de silêncio interior”.
Somente esse “silêncio interior”, esse mutismo pensante,
essas meditações, em meio às turbulências do mundo hodierno, só o silêncio,
dizia, pode nos conceder o dom e a graça de ler e fazer poesia, em meio ao
furacão midiático. Vilém Flusser alertava para os desgastes que a tecnologia e
a pressa das rotinas no mundo poderiam impor não só à Poesia, mas à Escrita em
geral.
Por isso, encerro citando a poetisa polonesa Wislawa
Szymborska que creio deu o diagnóstico preciso: “Alguns gostam de poesia. Alguns
– ou seja, nem todos. Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria. Sem contar a
escola onde é obrigatório e os próprios poetas seriam talvez uns dois em mil.”
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Adalberto de Queiroz: (Goiânia, 5/2/1955) é jornalista e poeta. Estudou Física na Universidade Federal de Goiás e Comunicação Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde frequentou círculos literários e conviveu com autores como Dyonélio Machado, Caio Fernando Abreu e Moacyr Scliar. Mais tarde, concluiu pós-graduação em Marketing e especialização em Estudos Medievais na Universidade do Novo México, formações que dialogam com seu interesse tanto pela tradição quanto pela circulação contemporânea do texto.
