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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Alfabeto Literário - P


Alfabeto Literário - P

  P — Poesia:  


Ler poesia pra quê?


    Por muito tempo, desde as minhas primeiras leituras de poesia que respondo a esse tipo de questão do título. Com o passar do tempo, treinei minha mente a esquecer esse tipo de tautologia e passei a responder com dois textos, antes de argumentar que, caia chuva ou faça sol (neve, então, ainda mais!) continuarei lendo poesia. O primeiro é do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser e o segundo, do alemão Martin Heidegger (falando sobre a poesia em geral e, especificamente, sobre a poesia de Hölderlin,1940-1960). Volto comentando depois, se mais houvesse pra dizer.

    I

    “Nem sempre estamos cientes do que devemos à poesia, no sentido lato da palavra: quase tudo que percebemos e vivenciamos. Fazer poesia é a produção de modelos de experiência, e sem tais modelos não poderíamos perceber quase nada”. Ficaríamos anestesiados e teríamos de – submetidos aos nossos instintos atrofiados – cambalear cegos, surdos e insensíveis. Os poetas são nossos órgãos do sentido. Nós vemos, ouvimos, sentimos sabores e cheiros devido aos modelos que nos são apresentados pelos poetas. Nós percebemos o mundo por meio desses modelos.

    “Os poetas criaram esses modelos e não os imitaram a partir daquilo que se encontrasse desmodelado e bruto em algum lugar. Quando vemos cores, seja por meio de Van Gogh ou de uma Kodak; [atenção, leitor, que Vilém Flusser ainda atualíssimo em 1987] quando ouvimos sons, seja o de Bach ou de um rock; quando sentimos sabores, seja o de um Brillat-Savarin ou de um fast-food; essas cores, sons e sabores são como são não porque vêm da Natureza assim, mas porque são culturais, isto é, porque foram poeticamente elaborados por um motivo fundamental de alguma forma não percebido naturalmente. Se tentássemos escrever uma história da percepção a partir da hipótese de que as cores são percebidas de maneira diferente antes e depois de Van Gogh, ela seria uma história da estética, da experiência.” (Vilém Flusser).

    II

    “A poesia é o nomear que institui o ser e a essência de todas as coisas, não um dizer qualquer, mas aquele graças ao qual apenas se mostra à abertura tudo o que nós depois discutimos e tratamos na linguagem de todos os dias. Por isso, a poesia não toma jamais a linguagem como um material já presente, mas é somente a poesia mesma a tornar possível a linguagem. A poesia originária de um povo histórico. E, portanto, vice-versa, a essência da linguagem que será compreendida a partir da essência da poesia” (Martin Heidegger, 1889-1976).

    O que dizer depois desses dois pensamentos fundantes? O uso da poesia parece ser posto no terreno da inutilidade cotidiana diante de um mundo que já passou pelo Holocausto e pelo terrorismo de âmbito mundial movido pelo fanatismo religioso.

    Porém, é a poesia também tábua de salvação para muitos homens e mulheres que olham o mundo e diante dele se sentem sem rumo, sem solução diante do problema do ser e do Tempo. É preciso convocar um poeta e não um filósofo para me ajudar a responder pelo atestado de vida da poesia.

    A poesia é a mais condensada forma de expressão verbal, afirma Ezra Pound. Devemos aprender que a poesia antecede ao poema e este (como a boa prosa) pode se basear numa das três saídas: fanopeia, melopeia ou logopeia. Qualquer dos caminhos tomados pode levar o poeta (ou prosador) a bons e maus resultados.

    Uma contradição do mundo atual foi apontada pela professora Goiandira Ortiz: “a literatura, especialmente a poesia, exige um modo de ler que o contexto atual dificulta com sua velocidade de comunicação, de apelos visuais e ruídos, jogando o sujeito para fora de si, não permitindo tempo espaço para uma disponibilidade de silêncio interior”.

    Somente esse “silêncio interior”, esse mutismo pensante, essas meditações, em meio às turbulências do mundo hodierno, só o silêncio, dizia, pode nos conceder o dom e a graça de ler e fazer poesia, em meio ao furacão midiático. Vilém Flusser alertava para os desgastes que a tecnologia e a pressa das rotinas no mundo poderiam impor não só à Poesia, mas à Escrita em geral.

    Por isso, encerro citando a poetisa polonesa Wislawa Szymborska que creio deu o diagnóstico preciso: “Alguns gostam de poesia. Alguns – ou seja, nem todos. Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria. Sem contar a escola onde é obrigatório e os próprios poetas seriam talvez uns dois em mil.”



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Autores e obras
Adalberto de Queiroz: (Goiânia, 5/2/1955) é jornalista e poeta. Estudou Física na Universidade Federal de Goiás e Comunicação Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde frequentou círculos literários e conviveu com autores como Dyonélio Machado, Caio Fernando Abreu e Moacyr Scliar. Mais tarde, concluiu pós-graduação em Marketing e especialização em Estudos Medievais na Universidade do Novo México, formações que dialogam com seu interesse tanto pela tradição quanto pela circulação contemporânea do texto.
Autor de livros de poesia, crônica e ensaio, publicou títulos em que a lírica se cruza com a reflexão sobre o ato de escrever e ler. Sua estreia, Frágil Armação (1985), foi seguida por Destino Palavra, O Rio Incontornável, Os Fios da Escrita, Cadernos de Sizenando, Entrelinhas (Perfis literários), e Entre Esplendores e Misérias (crônicas). O mais recente: Cantos(poesia)”, 2026, prêmio bolsa de publicações Leodegária de Jesus-2024. Sua obra retoma memória, leitura e tradição, com atenção a formas e procedimentos de anotação e comentário. O percurso de Queiroz articula poesia, crônica e ensaio, aproximando gêneros e épocas — e, nesse movimento, consolida uma presença própria e reconhecível na literatura brasileira contemporânea.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Alfabeto Literário - L

Alfabeto Literário - L

Leitura: o encontro que transforma

  L de ler, leitor, livro, livraria

A letra L tem uma história longa. Remonta aos egípcios, passando pelos fenícios, gregos e chegando aos romanos que apenas copiaram dos gregos a forma estrutural que usamos até hoje. Inicialmente chamada de “lamed” que queria dizer bastão ou aguilhão. Uma curiosidade linguística ou fonética: o som de L é chamado de "lateral", pois é quando o ar sai pelos lados da língua. Talvez, por isso palavras com L dão certa sensação de leveza: lua, luz, lar, lago.

Para quem gosta ou entende de numerologia, na numerologia romana L = 50. Na linguagem de Libras, L é o polegar e indicador abertos. A maior contribuição da letra L para a humanidade são os Livros! E ou as palavras derivadas ou ligadas ao universo dos livros: leitura, ler, livraria. Porém, a contribuição não para nos livros: nas artes e na música, o L nos apresentou talentos atemporais de grandes obras:


Legião Urbana - banda que marcou o rock brasileiro.
Luiz Gonzaga - o Rei do Baião.
Lupicínio Rodrigues - mestre do samba-canção.
Leonardo da Vinci - gênio renascentista.
Lygia Fagundes Telles - escritora brasileira.

Também na história e na política o L nos traz expoentes que mudaram a geopolítica nacional e mundial:

Lula - Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil.
Lincoln - Abraham Lincoln, presidente dos EUA que aboliu a escravidão.
Lênin - líder da Revolução Russa.
Luís XIV - o "Rei Sol" da França.

Na ciência:

Lavoisier - pai da química moderna.
Lamarck - naturalista, teoria da evolução.
Lovelace - Ada Lovelace, considerada a primeira programadora.

Grandes e relevantes fatos históricos que moldaram o Brasil atual e também outras partes do mundo, tiveram como primeira letra o nosso L:

Lei Áurea - 1888 - A lei que libertou os escravos no Brasil assinada pela Princesa Isabel.

Um dos "L" mais importantes da nossa história.

Luz Elétrica. A invenção da Lâmpada por Thomas Edison em 1879 mudou o mundo. A noite deixou de ser limite.


Lua - 1969
Lançamento da Apollo 11. "Um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade". O homem levou o pé na Lua.

Liderança e Revoluções

Lenin e a Revolução Russa de 1917.
Lutero e as 95 teses em 1517 que iniciaram a Reforma Protestante.

Literatura: Livros mudaram o mundo. Da Líada de Homero até Lolita. A Língua portuguesa também se espalhou pelo mundo com as Largas navegações portuguesas.

Luta: Libertação das mulheres, Lutas sociais, Lutas pelos direitos civis. O L sempre
aparece quando falamos de avanço.

Mas, e a história do livro e de todas as palavras oriundas desse objeto sagrado? Será que é possível listar uma pequena parte? A história do L nos livros: L de Livro: Vem do latim liber, que era a casca interna
das árvores onde se escrevia. Por isso "liber" virou livro. L de Ler: Também do latim legere = colher, juntar. Ler é colher palavras e juntar sentido. De Literatura. A palavra vem de Littera = Letra. Sem L, não tem letra. Sem letra, não tem literatura.

Ler nos remete a livros, revistas, jornais impressos ou virtuais. Já livros nos remete às livrarias! Ao espaço físico que guarda não apenas livros, mas também, ambiente! Local de aconchego, de conversas sem pressa, de presenças, amizades. Livrarias com cafeterias são aqueles espaços sagrados onde se misturam os cheiros dos livros, do café, do bolo, do pão de queijo! Onde cheiro se torna protagonista, se torna o personagem principal. Onde o amigo se torna mais especial, a conversa vira tratado filosófico digno de publicação!

Se o livro materializa os sentimentos de quem criou o seu conteúdo e externou; a livraria é o relicário de múltiplos sentimentos sacralizados em forma impressa!


Ler é abrir portais dimensionais, bidimensionais e até tridimensionais; é o transporte que leva o leitor às grandes batalhas, às pequenas batalhas, não menos importante, conforme seu contexto. Leva ao coração atormentado e também ao coração apaixonado; leva ao desencontro de pais e filhos; e ao reencontro também. Não sei quem disse que o universo cabe numa página de livro!

Cada universo pode ser descrito numa página de livro ou em várias páginas, visto que cada autor ou autora, descreve sobre universos das mais diversas maneiras! Jorge Amado e o universo da Bahia, em Capitães de areia, Gabriela! Machado, não o que corta a árvore para transformá-la em papel, mas o que
corta a realidade colonial, transformando em dúvida aquilo que não é necessário se duvidar! Carolina e o universo dos quartos de despejo; Cora e o universo rural repleto de doces!

A letra L não é não é a mais importante e ou a mais bonita do nosso alfabeto; nem a que tem as palavras mais impactantes. Quando pensamos em palavras iniciadas com L, lua aparece destacada. Nosso satélite regula o fluxo das marés, embeleza e alumia nossas noites. Aliás, o sertão goiano, à noite, sob a luz do luar é de uma beleza singular. Não importa a região do estado.

Outra palavra com L que também é sempre lembrada é lago. Lago que carrega muita vida, que conserva a água mesmo após o período chuvoso. Que proporciona contemplação, calma, banhos e pesca.

Lavoura, lenha, lida, labareda, laço, laçada, lasca, lebre, leitão falam entre si no dia a dia do povo campesino.


E quantos outras poderíamos destacar que fazem parte do nosso cotidiano?
Talvez, dezenas, centenas ou milhares delas.
Nem sempre atentamos para as letras, apesar de as usarmos rotineiramente, só pensamos em sua utilidade quando fazemos esse tipo de exercício mental. E assim como todo exercício, mental ou não, nos fortalece e revigora-nos. 

Elas exercem a função estrutural das palavras; servem como elos que farão o sentido de cada palavra. As vogais unem as consoantes e as tornam compreensíveis. Sem as vogais nosso idioma ficaria parecido com alguns idiomas europeus onde as consoantes tem a função das vogais inclusive na fonética. Porém, a nossa língua portuguesa é tão rica e vasta que oferecesse palavras para todas coisas com até mais de uma opção para o que desejamos falar, como por exemplo: casa de morar e casa de casamento; Sara como nome próprio e sara de sarar ou o pássaro saracura!


Na nossa cultura goiana, uai serve para exclamar, duvidar ou responder. Serve também para ganhar um tempinho até achar a palavra mais adequada para responder algo a alguém.


Sem a letra, não tem palavra! Sem a palavra não tem a frase! E sem a frase, não tem comunicação. Apesar de a letra ser a menor parte na construção do pensamento, seja escrito ou falado, sem ela, a letra, não há livro, nem música, nem poesia! Há só o silêncio. O silêncio é bom também. Mas só quando não
temos a necessidade de interagir com as outras pessoas. 

Assim, de letra em letra, de sílaba em sílaba, de palavra em palavra e de frase em frase, construí esse texto. Obrigado à todas as letras e em especial à letra L.


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Autores e obras

[1] Idário Carvalho Garcês Filho. Goiano de Itauçu, formado em administração com MBA em Marketing pela FGV-RJ., sócio da Livraria Palavrear. Morador de Goiânia há 55 anos. Sem livro publicado, escrevo por hobbie.

[2] Imagem 11l:pgeditora58078477000170.


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