GÊNEROS LITERÁRIOS
FORMAS DE EXPRESSÃO
Com o propósito de contribuir na construção de um pensamento crítico sobre a Inteligência Artificial - IA na sociedade contemporânea, tomo emprestado como prólogo os dizeres de Rômulo Vaz sobre a IA:
Ela pode ser uma excelente parceira de estudo, pesquisa, criação e inovação. Contudo, não substitui a experiência humana de olhar nos olhos, compreender silêncios, acolher emoções ou compartilhar afetos. Uma IA processa linguagem; seres humanos vivem histórias. (Rômulo Vaz)
Do viver histórias surgiu a contação de histórias. Da contação de histórias, a necessidade de classificá-las para melhor entendê-las, dando origem à categorização dos gêneros literários em narrativas, prosas e lirismo, as três formas clássicas tradicionais usadas para retratar as ações humanas.
Ao longo dos séculos, essa divisão foi considerada o bastante para a compreensão e a ordenação das produções literárias. Entretanto, as transformações culturais, sociais e artísticas ocorridas a partir da modernidade tornaram cada vez mais recorrentes as combinações de elementos do lírico, do narrativo e do dramático.
A essa simbiose deu-se o nome de hibridismo literário. Bernardo Élis, por exemplo, em prosa narrativa conta histórias do coronelismo marcadas pela crueldade, ao tempo em que, poeticamente, descreve o cerrado, fala da solidão do homem do campo e mostra o realismo da vida sertaneja.
Esse processo de hibridização intensificou-se com o advento das tecnologias digitais e, mais recentemente, com o surgimento da IA, vista como uma concorrente do ser humano na produção de textos e como um recurso capaz de levar os literatos à acomodação intelectual.
No primeiro caso, há de se distinguir “produção de textos” da “criação de textos”. A IA consegue produzir obras em qualquer estilo ou até mesmo combinar vários deles. Nesse caso, sua capacidade de produzir textos se sobrepõe de modo incomparável aos humanos.
De outro modo, por não ter consciência nem sentimentos, a IA dependerá sempre de uma referência criativa do ser humano para recriar e produzir textos. Sua produção será sempre desalmada, um arremedo de tudo o que os humanos criam movidos pelos sentimentos que agitam, enternecem, alegram ou entristecem os espíritos. Como o fazia Benedito Odilon Rocha ao descrever com belezura o cotidiano de sua Corumbá, as ruas da cidade e os costumes de sua gente. Seus sentimentos o inspiravam a poetizar com as tintas da simpatia, do amor e da bondade, cenas que a IA jamais será capaz de criar.
No segundo caso, porém, há algo de preocupante. Por ser capaz de produzir textos que combinam e mesclam características de diversos gêneros e estilos literários e, até mesmo elaborar uma narrativa em linguagem poética, a IA pode levar o ser humano a uma acomodação no processo criativo, cedendo para as tecnologias digitais espaços antes destinados à criatividade humana. Estamos, pois, diante de uma encruzilhada: com acomodação, perderemos gradualmente a habilidade para contar histórias interessantes; sem acomodação, poderemos, utilizando recursos da IA, criar e contar histórias épicas, líricas e dramáticas ainda mais vibrantes e inesquecíveis.
A escolha será sempre nossa!
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