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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Alfabeto Literário - G


 Alfabeto Literário - G

GÊNEROS LITERÁRIOS

FORMAS DE EXPRESSÃO

Por Luiz Vagner Jacinto

Com o propósito de contribuir na construção de um pensamento crítico sobre a Inteligência Artificial - IA na sociedade contemporânea, tomo emprestado como prólogo os dizeres de Rômulo Vaz sobre a IA:

    Ela pode ser uma excelente parceira de estudo, pesquisa, criação e inovação. Contudo, não substitui a experiência humana de olhar nos olhos, compreender silêncios, acolher emoções ou compartilhar afetos. Uma IA processa linguagem; seres humanos vivem histórias. (Rômulo Vaz)

  Do viver histórias surgiu a contação de histórias. Da contação de histórias, a necessidade de classificá-las para melhor entendê-las, dando origem à categorização dos gêneros literários em narrativas, prosas e lirismo, as três formas clássicas tradicionais usadas para retratar as ações humanas. 

       Ao longo dos séculos, essa divisão foi considerada o bastante para a compreensão e a ordenação das produções literárias. Entretanto, as transformações culturais, sociais e artísticas ocorridas a partir da modernidade tornaram cada vez mais recorrentes as combinações de elementos do lírico, do narrativo e do dramático. 

       A essa simbiose deu-se o nome de hibridismo literário. Bernardo Élis, por exemplo, em prosa narrativa conta histórias do coronelismo marcadas pela crueldade, ao tempo em que, poeticamente, descreve o cerrado, fala da solidão do homem do campo e mostra o realismo da vida sertaneja.

       Esse processo de hibridização intensificou-se com o advento das tecnologias digitais e, mais recentemente, com o surgimento da IA, vista como uma concorrente do ser humano na produção de textos e como um recurso capaz de levar os literatos à acomodação intelectual.

           No primeiro caso, há de se distinguir “produção de textos” da “criação de textos”. A IA consegue produzir obras em qualquer estilo ou até mesmo combinar vários deles. Nesse caso, sua capacidade de produzir textos se sobrepõe de modo incomparável aos humanos.

       De outro modo, por não ter consciência nem sentimentos, a IA dependerá sempre de uma referência criativa do ser humano para recriar e produzir textos. Sua produção será sempre desalmada, um arremedo de tudo o que os humanos criam movidos pelos sentimentos que agitam, enternecem, alegram ou entristecem os espíritos. Como o fazia Benedito Odilon Rocha ao descrever com belezura o cotidiano de sua Corumbá, as ruas da cidade e os costumes de sua gente. Seus sentimentos o inspiravam a poetizar com as tintas da simpatia, do amor e da bondade, cenas que a IA jamais será capaz de criar.

No segundo caso, porém, há algo de preocupante. Por ser capaz de produzir textos que combinam e mesclam características de diversos gêneros e estilos literários e, até mesmo elaborar uma narrativa em linguagem poética, a IA pode levar o ser humano a uma acomodação no processo criativo, cedendo para as tecnologias digitais espaços antes destinados à criatividade humana. Estamos, pois, diante de uma encruzilhada: com acomodação, perderemos gradualmente a habilidade para contar histórias interessantes; sem acomodação, poderemos, utilizando recursos da IA, criar e contar histórias épicas, líricas e dramáticas ainda mais vibrantes e inesquecíveis. 

        A escolha será sempre nossa!


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Autores e obras

[1]. Luiz Vagner Jacinto nasceu em Corumbá de Goiás (GO), onde aprendeu as primeiras letras no Grupo Escolar João Mendes. É graduado em Direito pela Faculdade de Direito de Anápolis, com especialização em Processo Civil pela Universidade de Caxias do Sul. Foi advogado do Grupo COPLAVEN em Anápolis, onde especializou-se na área de consórcio. Por meio de concurso público de provas e títulos, ingressou na magistratura tocantinense, onde se aposentou voluntariamente como Juiz de Direito de 3ª. Entrância. Após sua aposentadoria, exerceu as funções de assessor jurídico de Desembargador e assessor jurídico da Presidência do Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins. Vocacionado para o magistério, foi professor de Português no Colégio André Gaudie (Corumbá de Goiás), e de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito de Anápolis, na Universidade do Tocantins e na Universidade Federal do Tocantins, em Palmas (TO). É membro da AC-CLAM – Academia Corumbaense de Ciências, Letras, Artes e Música, onde ocupa a cadeira n. 17, que tem por patrono seu avô Odorico dos Reis Leal.
[2] imagem 7g:pgeditora58078477000170
[3]Rômulo Vaz é escritor e autor da reflexão sobre o papel da Inteligência Artificial nos processos de estudo, pesquisa, criação e inovação citada neste texto. Sua contribuição destaca a importância de compreender a IA como ferramenta de apoio, sem desconsiderar a experiência, a sensibilidade e os afetos próprios da condição humana.
[4]Bernardo Élis (1915–1997) faz parte da PG GALERIA - LEGADO. Foi escritor, advogado e professor goiano, reconhecido como um dos maiores representantes do regionalismo brasileiro. Primeiro autor de Goiás a ingressar na Academia Brasileira de Letras, retratou com profundidade o sertão goiano, os conflitos sociais e a condição humana. Sua obra, marcada pelo realismo e pela força narrativa, ocupa lugar de destaque na literatura brasileira.PG GALERIA - LEGADO: Bernardo Elis
[5]Benedito Odilon Rocha (1926–2003) PG GALERIA - LEGADO. Foi poeta, escritor, jornalista e professor goiano, amplamente reconhecido por sua contribuição à cultura e à literatura de Goiás. Em sua produção literária, destacou-se pela linguagem sensível e pela valorização da memória, das paisagens, dos costumes e do cotidiano goiano, imprimindo lirismo e profundo humanismo às suas obras. É considerado uma das vozes mais importantes da poesia goiana do século XX.

domingo, 26 de julho de 2026

Alfabeto Literário - F

 

Alfabeto Literário - F 

FICÇÃO – O MUNDO INVENTADO

Vozes da literatura feminina - Brasil


 Conhecer para melhor entender, e assim escrever, 
comunicar e vivenciar um mundo melhor.

Por Patrícia.Gabriel

 

O verbete em si aceita ser criação imaginária; invenção, fantasia; gênero literário baseado na imaginação, cujos personagens, fatos e situações podem ou não ter relação com a realidade[1]. É ato ou efeito de fingir; criação imaginária; invenção literária em prosa ou verso que apresenta acontecimentos e personagens imaginários[2]. Se formos às origens do Latim fictio, derivado do verbo fingere, que significa moldar, formar ou criar, reforçando a ideia de construção imaginativa da realidade [3].

A ficção é uma das mais importantes manifestações da criatividade humana. Por meio dela, autores e autoras constroem universos capazes de transcender os limites da experiência cotidiana, criando personagens, cenários e acontecimentos que, embora imaginários, que podem ou não podem dialogar com a realidade. Mais do que simples entretenimento, a ficção constitui uma poderosa ferramenta de reflexão sobre a condição humana, os conflitos sociais, os sentimentos e os valores que moldam a existência.

Das narrativas míticas da Antiguidade aos nano contos contemporâneos, a ficção desempenha papel fundamental na preservação da memória cultural e na transmissão de conhecimentos. Ao inventar mundos possíveis, a literatura permite ao leitor experimentar outras perspectivas, desenvolver a empatia e ampliar sua compreensão da sociedade. Como observa Antônio Candido[4], a literatura atende a uma necessidade universal de fabulação, contribuindo para a formação humana e para o exercício da imaginação.

Brasil, brasileiro, Brasil Goiano, Brasil Mulher, escritoras nossas que deram vida nova à ficção:

Clarice Lispector  privilegia os movimentos da consciência e os conflitos interiores das personagens. Obras como A Hora da Estrela[5] e A Paixão Segundo G.H.[6] - a complexidade da existência humana, uma aventura dentro da subjetividade.

Lygia Fagundes Telles, a profundidade psicológica e a complexidade das relações humanas. Em obras como As Meninas[7] e Antes do Baile Verde[8], memória, identidade, liberdade e transformação, com personagens que permanecem vivas na imaginação dos leitores.

Conceição Evaristo incorpora as vivências da população negra e das mulheres periféricas. Em obras como Ponciá Vicêncio[9]e Olhos d’Água[10] a escrevivência demonstra que a ficção pode ser simultaneamente arte, memória e instrumento de resistência.

Nélida Piñon trouxe consigo a tradição histórica e mítica, explorou temas relacionados à imigração, à memória e à identidade cultural brasileira. A República dos Sonhos[11]e a formação da sociedade brasileira.

Ana Maria Gonçalves[12], Adriana Lisboa[13] e Martha Batalha[14] ampliaram os horizontes da ficção nacional com obras abordam raça, gênero, pertencimento e desigualdade social. A literatura provando-se capaz de apresentações críticas no mundo contemporâneo.

Rodriana Costa [15], autora do livro de contos Casulo da Borboleta reúne narrativas que exploram sentimentos, conflitos e transformações humanas, utilizando a metáfora do casulo como representação dos processos de mudança vividos pelos personagens. Nas palavras dela Mais ao casulo que às borboletas. Temas como solidão, escolhas, perdas e amadurecimento para mostrar a ficção pode transformar experiências cotidianas em narrativas significativas à complexidade da existência humana.

Jane Costa [16] em O Mundo Secreto de Álvaro. a importância da ficção para a visualização da realidade a infância como momento fundamental na formação de leitores desde a infância, e no aprendizado de valores que formarão consciências livres de discriminação e preconceito – Conhecer para melhor entender, e assim escrever, comunicar e vivenciar um mundo melhor.

A ficção se revela mais do que apenas da fantasia. Constitui-se, pois, em um encontro da imaginação e da realidade, propiciando ao leitor compreender melhor a si, ao outro e ao mundo que o cerca.

Na literatura brasileira feminina, esse mundo inventado ganha vozes múltiplas, perspectivas diversas e novas formas de narrar a experiência humana. Das reflexões existenciais de Clarice Lispector à escrevivência de Conceição Evaristo; das narrativas psicológicas de Lygia Fagundes Telles às histórias contemporâneas de Rodriana Costa e Jane Costa, a ficção reafirma seu papel como instrumento de conhecimento, sensibilidade, transformação e liberdade. Ler ficção é exercitar a capacidade humana de imaginar para compreender, criar para resistir e contar histórias para permanecer.


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Autores e obras

[1]. Patrícia.Gabriel - Fundadora e editora-chefe da PG Editora. É escritora, romancista, poeta, ghostwriter. Atua na criação de obras literárias, biografias e projetos editoriais, unindo técnica, sensibilidade e excelência textual. Possui formações literárias e editoriais pela Universidade do Livro/Unesp, Casa Educação e pela Harvard University, no curso Masterpieces of World Literature. Também desenvolve consultoria editorial, revisão profissional de textos e ações de incentivo à leitura. É membro efetivo da União Brasileira de Escritores - seção Goiás UBE(GO); membro correspondente da Academia Goianiense de Letras AGnL. Site da autora:
[2] imagem 6f:pgeditora58078477000170
[3] MICHAELIS. *Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa*. São Paulo: Melhoramentos, 2015.
[4] [5] HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. *Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa*. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
[6] CANDIDO, Antônio. **O direito à literatura**. In: CANDIDO, Antônio. *Vários escritos*. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2004. p. 169-191. Revista Prosa Verso e Arte.
[7] LISPECTOR, Clarice. *A Hora da Estrela*. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
[8] LISPECTOR, Clarice. *A Paixão Segundo G.H.* Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
[9] TELLES, Lygia Fagundes. *As Meninas*. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2009.
[10] TELLES, Lygia Fagundes. *Antes do Baile Verde*. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
[11] EVARISTO, Conceição. *Ponciá Vicêncio*. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.
[12] EVARISTO, Conceição. *Olhos d'Água*. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
[13] PIÑON, Nélida. *A República dos Sonhos*. Rio de Janeiro: Record, 1984.
[14] GONÇALVES, Ana Maria. *Um Defeito de Cor*. Rio de Janeiro: Record, 2006.
[15] LISBOA, Adriana. *Sinfonia em Branco*. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
[16] BATALHA, Martha. *A Vida Invisível de Eurídice Gusmão*. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
[17]COSTA, Rodriana. *Casulo da Borboleta*. Goiânia, 2025.
[18]COSTA, Jane. *O Mundo Secreto de Álvaro*. Goiânia, 2025

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Alfabeto Literário - E

 Escrita 

A arte de dar forma às ideias

Registros que uniram povos, culturas, línguas e globalizaram o mundo.


    Desde os primórdios da humanidade, o ser humano teve a necessidade de deixar registrado o que via, sentia, acreditava e a sua relação com o outro através da língua falada e posteriormente, a escrita.

    Segundo antigos historiadores, a escrita surgiu por volta de 3.500 anos a.C, na Mesopotâmia (atual Iraque) denominada Escrita Cuneiforme, onde os Sumerianos usavam plaquetas de argila úmida e uma espécie de estilete, em forma de cunhas, para registrarem respectivamente a cultura, conhecimentos, leis e suas crenças religiosas. E, também, transações comerciais e financeiras. 

    Heródoto[3], filósofo grego do século V a.C, um dos escritores mais influentes da Idade Antiga, foi o precursor da escrita propriamente dita, é considerado o “Pai da História”. Em sua obra – HISTÓRIAS - definiu inteligentemente que a investigação, ouvindo relatos e histórias, e comparação, usando a pesquisa e a razão pudessem aproximar os registros com a luz da verdade dos fatos ocorridos, opondo-se a outros métodos fantasiosos contados por mentes imaginativas e contraditórias.

    Em uma outra linha de pensamento, de acordo com o também filósofo grego, Aristóteles[4], as palavras escritas não são apenas marcas ou símbolos da fala - a escrita serve para registrar e transmitir o conhecimento humano e unir realidades diferentes.

Simultaneamente às diversas concepções filosóficas acerca da escrita, o que podemos perceber é que ao longo do tempo ela exprime os sentimentos da alma, as emoções, as paixões, os costumes, as experiências, as dores, as tragédias, os humores e as competições humanas.

A escrita, desde as primeiras pinturas rupestres catalogadas pelo homem na pré-história, retrata cenas do cotidiano, rituais de caça e crenças implícitas, ligadas diretamente a sua essência e originalidade.

Além de ser uma invenção extremamente relevante na história da humanidade, a escrita uniu povos, culturas, línguas e globalizou o mundo na atualidade. Trouxe a oportunidade para as pessoas refletirem e buscarem respostas conjuntas sobre seu papel na sociedade em que vivem e sua relação com os outros.

Consequentemente, o alfabeto criado pelos Fenícios por volta de 1.000 a.C, no antigo Oriente Médio, foi outra invenção genuína que contribuiu significativamente para a consolidação da escrita até os dias atuais, na contemporaneidade. Um legado ricamente utilizado pelas nações orientais e ocidentais para a construção da chamada “civilização”.

Atualmente, vivemos na Era Digital, um salto gigantesco, extraordinário e vasto nas informações e tecnologias com o uso de computadores, internet, smartphone, tabletes, notebook, televisão e a inteligência artificial (IA) capazes de alavancar, com primorosa rapidez, as principais atividades do dia a dia da comunicação e da modernidade. Houve um grandioso aceleramento, tratando-se das mídias, que substituíram vários trabalhos os quais os homens realizavam anteriormente. Sendo assim, hoje vivenciamos um período de “robotização” que favorece aos interesses capitalistas em todo o mundo. 

Acho prudente ressaltar que estamos em um período tecnológico muito avançado, com padrões midiáticos com relevância assustadora para os “fazedores das leis”. Considero isso, um perigo eminente para aqueles que vivem à margem de um sistema baseado em dados, números, códigos e regras, desvalorizando impiedosamente as classes menos favorecidas. 

Portanto, vejo a escrita e a literatura como uma estratégia fundamental para a educação das gerações vigentes e vindouras,  uma ferramenta poderosa para a conscientização e libertação de paradigmas e comportamentos que impedem as pessoas de se tornarem melhores. 

As palavras proferidas de forma rasa e vazia o vento leva, mas a escrita publicada com o intuito de promover e propagar o bem, permanece para sempre.


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Autores e obras
[1] imagem 5e:pgeditora58078477000170
[2]Jane Costa é historiadora, escritora, poeta, psicopedagoga e professora aposentada. Tem seis livros publicados, sendo quatro infantis e dois de poesias. Participou de Antologias no Brasil, Estados Unidos, França e Cabo Verde. Membro da União Brasileira de Escritores, seção Goiás (UBE-GO), da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB), da Focus Brasil em Nova York. Premiações: Concurso de Poesia Cid Moreira(2021); 1º lugar no Concurso de Contos da Academia de Letras de Taubaté (SP) - Dando a luz durante uma tempestade; Arte Cultural, Florianópolis (2023). Prêmio Destaque Focus Brasil/Nova York - AILB – 1º lugar - Categoria infantil (2025).
[3] Filosofia - Heródoto
[4]Filosofia - Aristóteles

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Alfabeto Literário - D

Diálogo

O Diálogo em tempos de inteligência artificial - IA

Ponte entre ideias e pessoas

Alfabeto Literário - D


Desde que a humanidade descobriu o poder da palavra, dialogar tornou-se muito mais do que trocar informações: tornou-se um ato de reconhecimento. 

Quando escutamos alguém com atenção, validamos sua existência; quando falamos com respeito, construímos pontes. 
O diálogo sempre foi a ferramenta mais sofisticada da civilização. Entretanto, vivemos uma época curiosa. Conversamos menos entre nós e mais com as máquinas. Perguntamos, pedimos conselhos, escrevemos poemas, resolvemos problemas e até desabafamos com sistemas de Inteligência Artificial. Essa transformação não precisa ser vista como uma ameaça, mas como um convite para refletirmos sobre a maneira como nos comunicamos.
Há quem trate uma IA como se fosse uma pessoa. Há quem trate pessoas como se fossem máquinas. Nenhum dos extremos é saudável. A Inteligência Artificial responde, organiza ideias, amplia possibilidades e democratiza o acesso ao conhecimento. Ela pode ser uma excelente parceira de estudo, pesquisa, criação e inovação. Contudo, não substitui a experiência humana de olhar nos olhos, compreender silêncios, acolher emoções ou compartilhar afetos. Uma IA processa linguagem; seres humanos vivem histórias.
Curiosamente, a forma como dialogamos com a IA revela muito sobre nós mesmos. Quem formula perguntas claras costuma receber respostas mais consistentes. Quem escreve com gentileza frequentemente organiza melhor o próprio pensamento. Assim, conversar com uma inteligência artificial também pode ser um exercício de clareza, empatia e reflexão.

Mas há um cuidado indispensável: não permitir que a facilidade tecnológica substitua a profundidade das relações humanas. O risco não está na IA falar conosco; ele existe em deixarmos de conversar uns com os outros, pessoa a pessoa. Nenhum algoritmo pode substituir um abraço, uma conversa entre amigos, um debate respeitoso ou o silêncio compartilhado entre pessoas que se compreendem.

O filósofo Martin Buber[3] afirmava que a verdadeira existência acontece no encontro entre o "Eu" e o "Tu". Esse encontro exige presença, abertura e reciprocidade. 

Paulo Freire[4] também nos ensinou que o diálogo é um ato de amor, humildade e esperança. Dialogar não é vencer uma discussão, mas criar possibilidades para compreender o outro. Talvez essa seja a maior lição para a era digital: utilizar a tecnologia para aproximar pessoas, jamais para substituí-las.
O futuro não será decidido pela Inteligência Artificial, mas pela inteligência humana ao utilizá-la com ética, responsabilidade e sensibilidade. Quanto mais avançam as máquinas, maior deve ser nossa capacidade de ouvir, acolher, questionar e dialogar.
No fim das contas, a tecnologia evolui rapidamente, mas continua sendo a conversa sincera entre pessoas que transforma vidas. Que saibamos dialogar com as máquinas sem perder a capacidade de dialogar com o coração humano. Afinal, nenhuma inovação será verdadeiramente inteligente se nos afastar daquilo que nos torna profundamente humanos.



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Porque cada livro transforma um leitor. E cada leitor ajuda a transformar o mundo.

[1] Rômulo Vaz Youbube. Natural de Goiânia (GO), o escritor Rômulo conta com quatro obras publicadas: "O menino do alpendre"; "Enquanto a vida passa";  "Não foi à toa, foi a palavra" e o lançamento deste ano, pela PG Editora: De 5 em 5 abrem-se as cortinas. Membro correspondente da Academia Goianiense de Letras – cadeira 58 Formado em Filosofia pela PUC/GO, pós-graduado em Filosofia Clínica (Instituto Pacter/Porto Alegre), Produtor Cênico (pelo Instituto Basileu França). Além do trabalho como ator e professor de artes cênicas (adultos e idosos), Rômulo mantém no Youtube o Programa Convescote. @romulovaz.convescote @teatrohumanista @dragsboulevard romulovaz32@gmail.com
[2] imagem 4d:pgeditora58078477000170
[3] BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro.
[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Alfabeto Literário - C

 

Crônica

A literatura que nasce do cotidiano.

Alfabeto Literário - C


    Na cozinha, a pilha de louça, consequência da reunião da noite anterior para festejar a vitória do Brasil sobre o Japão, era minha. Meu palpite venceu: 2x1. Placar de sufoco, mas na Copa do Mundo todos querem vencer. A louça estava lá, a minha espera, grandes panelas foscas e sujas, uma dezena de pratos e duas de copos, mais talheres. Como podiam os alumínios estarem tão apagados? Na época em que eu tinha mais tempo, as panelas brilhavam sem ajuda de limpa alumínio, e, ainda, lembro de minha avó arear com areia e sabão de bolas as grandes panelas. A secar reluzentes ao sol. Lembro de doer-me as vistas.

    Enquanto, areava a panela, com limpa alumínio e Bombril, uma espuma cinza e espessa surgia com o atrito da esponja. Uma nódoa veio à memória: a menina de chinelos e uma pinta no dedão do pé. Qual era mesmo o nome dela?  No tempo de escola, ela andava para lá e para cá marcada de espuma cinza, esquecida no antebraço. Provavelmente, areava as panelas antes de ir à escola. Pensei na tal tarefa doméstica enquanto me abdicava de escrever algumas linhas para a publicação na coluna do dia seguinte, mas a louça não podia esperar. Era dia de home office e eu ainda não havia aberto o computador.

    Lavaria a louça o mais rápido possível a fim de começar a trabalhar na produção da crônica: um gênero textual do cotidiano. O que seria mais trivial do que lavar louça e se perder em pensamentos?

    O que o tempo teve a ver com as nossas tarefas do dia a dia? Agora, não é necessário arear. As panelas são feitas de outros materiais que facilitam a lavagem. Não se usa alumínio batido como antigamente. Existem outros tipos, mais econômicos ou saudáveis. Dizem que o alumínio é proibido em muitos países do mundo. Esquivei da ideia de contabilizar a quantidade dessa substância em meu organismo, absorvida nos meus quarenta e poucos anos de vida.

    Voltei a pensar na crônica, agora esfregando os talheres. A crônica consiste em narrativas sutis. Não há, necessariamente, uma moral da história. Para ser honesta, moralidade é um termo perdido na sociedade contemporânea, fadado aos moralistas sem moral ... mas se ela existe, nesse gênero textual, não deve ser a protagonista.

    Crônica consiste em uma situação paralisante que deve se remeter ao cotidiano... reflexiva imbuída de estar, numa “verdade do cronista”. Parece-me um conceito justo, mas falho ou questionável se comparada a outros gêneros. Suspeito que a crônica seja prima-irmã do conto.  Sua elaboração poderia consistir no esforço de escrever criticamente sem ser explícito, evasivo, como em uma situação do cotidiano observado pelo seu autor. Uma narrativa que desperta um olhar reflexivo sobre um tema que se transveste-se de trivial. 

    Julgo ser um perigo escrever algo sobre o cotidiano que está imbricado em nós... A crônica consiste em narrativas sutis. Sem moral, por gentileza, insisto ... se há alguma deve ser resgatada pelo leitor ou leitora. Cabe a ele ou ela arrancá-la e lançá-la para dentro de si, se fazer introspectivo a partir da realidade massivamente comum.

    Há a crônica jornalística. Essa possui uma função ainda mais social e ousada. Não compliquemos, por isso, pensaremos na crônica sem definirmos o âmbito discursivo, ao menos por enquanto - Dialogo com a minha consciência. A referida instância discursiva, aberta ao público maior, em que populares a leem no jornal, se divertem com a narrativa sem perceber que cada linha esfrega em sua cara um acontecimento corriqueiro, às vezes, íntimo, nostálgico ou memorável ao seu cronista, com um propósito astuto, esporadicamente, não capturado.

    Veio-me Marcuschi que assegura todos os gêneros textuais a partir da sua forma e função. Assim, aplicando à crônica, tendo a pensar que: o primeiro se molda na narrativa curta sobre um enredo acerca do cotidiano que pressupõe um tema relevante sob o ponto de vista de quem a elabora; enquanto o segundo se relaciona com a finalidade de o leitor apreciar um enredo desvelando um tema crítico-reflexivo, sem lhe ser empurrado goela abaixo, feito pílulas amargas que se devem engolir rapidamente antes que a saliva revele seu gosto amargo.

    É certo que não tenho a pretensão de definir ou de conceituar tal gênero. Aprecio escrevê-lo e lê-lo.

    O que está posto, aqui, consiste em uma reflexão ou tentativa de elaboração. Julgo ser difícil exercer a tarefa de crítico ou teórico literário. Para esse momento, costumo citar a escritora Lêda Selma que traduz a beleza de escrever narrativas curtas, trazendo uma resolução para a questão teórica-literária discutida. Ela cunhou o termo Cronto, sem aspas mesmo: ocorre quando não é possível a distinção entre conto e crônica. Lêda Selma escreve maravilhosamente esse novo gênero literário, assim como Clarice Lispector já o fazia, mas foi Lêda quem ousou resolver tal impasse teórico-conceitual, ainda em discussão por muitos estudiosos da literatura e linguística. 

    Percebi, velozmente, a finalização da louça que agora precede a limpeza da pia... Assim que terminar de secar a cuba, me dedicarei às incumbências da escrita da crônica: uma narrativa do cotidiano, como se o conto também assim não o fosse.




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Autores e obras
[1] Rodriana Costa. Escritora, entusiasta das artes. Escreve contos e crônicas publicados em sites, coletâneas e livros. Destaca-se “Minha amiga Esmeralda”, conto que compôs a “Antologia Mulheres em seus Destinos”, publicada em Cabo Verde. Em 2022, publicou o livro “Aromas e Memórias: contos” e em 2025, o livro de contos “Casulo da Borboleta”. É doutora em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB/Universtià de Pescara (Itália). É Mestre em Linguística e Língua Portuguesa e graduada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente, é docente no ensino superior, coordena e atua em projetos literários e Vice-presidente da UBE-seção Goiás. Site da autora:
[2] imagem 2c:pgeditora58078477000170

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Alfabeto Literário - B

BIBLIOGRAFIA

As leituras que formam um escritor

Alfabeto Literário - B




       Ler e escrever – escrever e ler. Ler sem escrever, até pode ser, mas escrever sem ler – complica! Costuma-se dizer que todo escritor é um leitor, verdade sim, no entanto, é uma resposta incompleta.

Os livros são indispensáveis, sejam obras-primas da literatura mundial e nacional, dos clássicos aos ultramodernos (já leu um nano-conto?)

Para os escritores, ler é mais amplo, vai além daquilo que já foi escrito (papiro, papel, on-line). Escritores leem personalidades, humores, cenários, sociedades, situações, ritmos versos e controvérsias, por isso nem toda leitura que forma um escritor está nos livros. Tais leituras estão nas suas próprias vidas e nas histórias que viveram, vivenciaram, estudaram, e até mesmo ouviram falar. É o que dá aos livros sua característica singular – através dos livros é permitido experienciar outra vida, outras histórias, viajar o mundo viajar no tempo e no espaço (passado, presente e futuro) realidades, ficções e tudo quanto mais e maior puder surgir da imaginação e do pensamento humanos.

Ao abrir um livro, o leitor aceita um convite para enxergar através dos olhos de outra pessoa, e.ao mesmo tempo, projetar seus próprio olhar enquanto lê nas linhas e entrelinhas do autor. Talvez não haja experiências humanas que ofereçam um exercício tão profundo de deslocamento. Talvez seja justamente por isso que a leitura esteja na base da formação de tantos escritores.

Imaginação, percepção!

Técnicas de escrita e estilo podem ser aprendidas e copiadas, é assim que os agentes literários de IA escrevem, mas creio que nunca serão capazes de perceber, a literatura vai, então, além, audaciosamente onde a mente puder nos levar.

Perceber aquilo que passa despercebido; perceber a solidão escondida atrás de uma conversa comum; perceber a coragem que existe em pequenos gestos, perceber que cada pessoa carrega uma história que não pode ser resumida a uma aparência, uma opinião ou uma circunstância.

A bibliografia de um autor contemporâneo não se mede apenas pela estante dos livros já lidos, restam os não lidos, as percepções, as experiências, as inquietações provocadas pelas perguntas uma hora respondidas e outras ainda incógnitas.

        O escritor, autor da escrita que constrói e desconstrói, aquele que assume seu papel social e propõe novos valores, novas crenças... que transforma o mundo feio em rara beleza, ou mostra o horror na belezura, que faz ciência e traz vida ou destruição.



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Autores e Obras
[1]. Patrícia.Gabriel - Fundadora e editora-chefe da PG Editora. É escritora, romancista, poeta, ghostwriter. Atua na criação de obras literárias, biografias e projetos editoriais, unindo técnica, sensibilidade e excelência textual. Possui formações literárias e editoriais pela Universidade do Livro/Unesp, Casa Educação e pela Harvard University, no curso Masterpieces of World Literature. Também desenvolve consultoria editorial, revisão profissional de textos e ações de incentivo à leitura. É membro efetivo da União Brasileira de Escritores - seção Goiás UBE(GO); membro correspondente da Academia Goianiense de Letras AGnL.
[2] imagem 2b:pgeditora58078477000170

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Alfabeto Literário - A



Autor

O papel social do autor na era da IA

Alfabeto Literário - A


    À época da virada do milênio, estávamos percebendo a Era digital. No cerne do mundo literário, o papel do autor na sociedade fortalece sua identidade, uma certeza ou ainda um questionamento.

    A conhecida frase “ninguém segura a roda do progresso” ultrapassou Maverick, alcançou Mach 15. A “roda” não é mais o Concorde ou Stealth pois foguetes de E. Musk agora tem marcha ré! Toda a Terra avançou na Era Digital e vinte seis anos a frente dos anos dois mil, a Era Digital se converteu em Inteligência Artificial - IA.

    Estamos diante de grandes desafios de autoria, qual é o papel do autor/escritor na sociedade hodierna, e para essa resposta, mister é desenvolver uma identidade autoral. Antes, autor que se fazia presente na arte e na literatura escrevia o lhe vinha “à telha”, gêneros e números. Não creio que se persista desta forma, o leitor quer mais, muito mais. Também não se trata da resistência do livro, ele é um sobrevivente, a exemplo de Gilgamech que viveu o grande incêndio, sobreviveu as areias do tempo, literalmente, e hoje se mostra na Biblioteca de Londres. O livro é um sobrevivente há milênios e continuará a ser.

    Voltamos aos autores, escritores sincrônicos, estes que lutam para desenvolver sua identidade, fazer-se presente e agente da sociedade. A IA é um instrumento eficaz e eficiente, mas ainda um instrumento. Por mais que se digne a uma presunçosa posição paralela ao escritor, postando de humanoide, jamais alcançará Machado de Assis ou Clarice Lispector, faltará sempre ingredientes de pertencimentos humanos: a imaginação original, o pensamento originário, a emoção translúcida única.

    Sua velocidade de análises algorítmicas podem alcançar infinitos conhecimentos, no entanto, todas serão provenientes de aprendizes e aprendizados, de Sócrates ou Galileu, de Picasso ou Bach.

    Como se vê a questão é humana – o medo, que trava e empobrece o raciocínio que se conclui na falácia da superioridade da IA. Quem pode ser maior que os nosso ícones literários, alguns dos novos que se compare aos clássicos? Resposta fácil – não! Por quê? Fácil também, cada um de nossos escritores tem identidade própria, aquela maravilha que nos alegra, nos inspira ou até mesmo nos reprime, mas ainda única e autêntica.

    Assim como cada DNA é individual, assim é a identidade autoral, em qualquer Era ou milênio.

    E vêm o questionamento verdadeiro: o autor/escritor, qual seu papel social?

    Se na legislação existe a função social da propriedade, na escrita não é apenas um papel, mas uma ou mais funções sociais a serem desenvolvidas pelo escritor. Encerra-se a beleza da arte da escrita no evento estético de valor social.

É literatura quando a linguagem se torna um evento estético! 



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[1]. Patrícia.Gabriel - Fundadora e editora-chefe da PG Editora. É escritora, romancista, poeta, ghostwriter. Atua na criação de obras literárias, biografias e projetos editoriais, unindo técnica, sensibilidade e excelência textual. Possui formações literárias e editoriais pela Universidade do Livro/Unesp, Casa Educação e pela Harvard University, no curso Masterpieces of World Literature. Também desenvolve consultoria editorial, revisão profissional de textos e ações de incentivo à leitura. É membro efetivo da União Brasileira de Escritores - seção Goiás UBE(GO); membro correspondente da Academia Goianiense de Letras AGnL.
[2] imagem 1a:pgeditora58078477000170
[3] Ademir Luiz, Presidente da UBE(GO) 2026/2027. 

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