Alfabeto Literário - Q
Q — Questionamento: Perguntas que abrem caminhos
A inutilidade
desprovida de questionamentos
Sócrates acordou após o efeito da cicuta. Jaz um sábio.
Assim, a viagem iniciou esgotando-lhe não só o corpo como a alma imortal.
Atravessou o tempo, perpassou alguns séculos, chegou a lugares contestáveis:
foi ao céu, visitou o purgatório, desceu ao inferno incrédulo, quis ficar no
limbo, mas divagou no tempo. Sentia-se cheio de dúvidas, revia eras distintas,
vasculhava seus próprios pensamentos, refletia incessantemente; concluindo que
não sabia nada e confiante em encontrar algum ser humano mais sábio que um dia
fora. Seguia sua missão que consistia em contestar o oráculo de Delfos. Acusá-lo-ia
de mentiroso! Mas quem é o homem mais sábio de todos?
Buscava a sabedoria em algum ser humano depois de
acompanhar o desenvolvimento das sociedades... Ressignificava suas concepções e
instaurava um problema filosófico: Haverá algum ser mais ou tão sábio quanto
Sócrates?
Desembarcou em uma estação de muitas informações. Uma
enxurrada de textos, despencou diante de seus olhos. Assim que ouviu sobre a
existência de um oráculo veloz a quem tudo respondia, teve impressão de que as
pessoas do mundo ocidental tinham mais acesso ao conhecimento. Meio
espirituoso, se dedicaria à sua busca. Encontraria o tal sábio. Esse seria
dotado de humildade para reconhecer o conhecimento que advém da reflexão, que,
por sua vez, precede dos questionamentos, ou seja, não se reconheceria como tal,
nem se transverteria em falsa modéstia.
Desde o oráculo, em tempos de filosofia em pórticos e
jardins atenienses, o ser humano se respaldava em um conhecimento vindo de um
ser imagético supremo que profetizava e atraia bons ou maus presságios.
Agora, Sócrates esbarrava em parafernálias tecnológicas, da
automação às Inteligências denominadas por alguns de Superinteligência,
sugerindo à sua superioridade mecânica ao intelecto humano. Deveria haver
controvérsias! O filósofo jamais conceberia a existência de um cérebro de
metal. Possível sugadores de cérebros humanos!
Sócrates, em sua defesa diante de sua condenação à própria
morte, tentando encontrar algum ser humano questionador e desprovido de
superegos em diferentes âmbitos, deveria considerar a novidade a qual todos
estavam rendidos. Súditos de uma moral encruada. Ele, o filósofo, argumento
diante de todos no tribunal:
“Querofonte foi a Delfos e ousou perguntar ao oráculo se
havia alguém mais sábio do que eu [...] A sacerdotisa Pítia respondeu que não
havia homem mais sábio”.
Na estação XIX, verificaria a atuação feminina, valentes
amazonas, reivindicam o seu protagonismo. Ficara absurdamente encantado.
Motivou-se buscar nas praças, homens e mulheres que questionam a vida e suas
certezas, mas se decepcionava a cada poeta questionado, a cada governante
consultado. Não encontrou artesãos como os de outras estações, mas havia
oradores, um tanto presunçosos: “todos trágicos, ditirâmbicos e de todos os
tipos”.
Ao perceber que as
praças de outrora estavam dentro de aparelhos acoplados em corpos humanos, que
podiam ser acessados de qualquer lugar do mundo, a qualquer momento, Sócrates
não se fez rogado diante de uma estação fadada ao fracasso. Não ofereceria
clemência ou piedade a estação anestesiada.
Diferentemente do oráculo de outrora, esse podia ser perguntado sem nenhum ritual ou preparo prévio. Assim, Sócrates se regozijou com a satisfação da possibilidade de encontrar um sábio dentre todos os habitantes do planeta.
Deve apertar as teclas do aparelho de busca ou somente falar o que deseja saber.
Pergunte e haverá respostas rapidamente. Essa é uma era da rapidez. De tendências, em que fora dessas praças digitais, ninguém percebe ou é perturbado pelo outro. Disse um homem resguardado em sua própria menoridade.
Mas para o filósofo, nada lhe interessaria, se não fosse
para a aquisição de sabedoria. Durante a sua viagem até a estação XXI, se
rendeu, contemplativo, à estação XX, com a obra O idiota, de Dostoievsky, sem titubear, elencou a condição do ser
humano como um tema filosófico. O príncipe Míchkin, verdadeiramente, sabe e não
se diz saber, mas se questiona a todo tempo. Suspeitava ser esse um sábio.
Da mesma maneira, de
olhar estreito, observava como a sociedade mudou seus costumes, seus
comportamentos, suas vestimentas, mas ainda assim, continuava sendo a mesma,
com exceção da estação XXI. Assim, examinaria O mentecapto, de Fernando Sabino, como uma figura sábia que não
desprezava o questionamento e nem se submetia aos aparelhos ideológicos do
discurso.
Esses, pensava o filósofo,
são sujeitos que não se curvam à tendência de “inteligência”. Que não
terceirizam seus intelectos provenientes de suas próprias capacidades de
pensar, refletir e criar.
Absorto, na estação XXI, tentava compreender o mundo
dividido entre mentes de carne e mentes de metal. Escutava confuso: é feito por humanos de verdade? Esse é
humano? Tem garantia de ter sido produzido por humanos? É real ou artificial?
Tais questionamentos, colocavam em confronto tudo que havia pensado e ensinado
sobre humanidade. Sabia que definitivamente, nada sabia.
Então pediu para o homem que continuava distraído, de olhos
fixados na tela reluzente do tal oráculo, para consultar quem era o mais sábio
de todos os tempos.
“Não existe um
único homem considerado o mais sábio de todos os tempos, pois a resposta
depende da tradição religiosa, filosófica ou cultural que você consulta.”
Satisfeito com a resposta, desejou voltar ao tempo em
que foi levado ao tribunal para reafirmar sua tese inicial: de que não poderia ser o homem mais sábio. E constataria que os atenienses ganhariam, de fato, uma imensa e
duradoura má fama por terem condenado à morte o sábio Sócrates. O julgamento e
a execução por envenenamento (cicuta) em 399
a.C. transformaram-se historicamente no maior símbolo dos perigos da
intolerância ideológica e dos excessos da própria democracia.
Então, se sentindo vingado
e cheio de razão, desejou nunca ter saído do limbo!
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[1] Rodriana Costa. Escritora, entusiasta das artes. Escreve contos e crônicas publicados em sites, coletâneas e livros. Destaca-se “Minha amiga Esmeralda”, conto que compôs a “Antologia Mulheres em seus Destinos”, publicada em Cabo Verde. Em 2022, publicou o livro “Aromas e Memórias: contos” e em 2025, o livro de contos “Casulo da Borboleta”. É doutora em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB/Universtià de Pescara (Itália). É Mestre em Linguística e Língua Portuguesa e graduada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente, é docente no ensino superior, coordena e atua em projetos literários e Vice-presidente da UBE-seção Goiás. Site da autora:





