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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Alfabeto Literário - I

 


Alfabeto Literário - I

Imaginação - o voo que cria mundos


    Antes de um livro existir, ele é imaginado.


"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca."
Jorge Luis Borges[3] 


Toda obra de arte existe duas vezes: primeiro na imaginação, depois no mundo. Com os livros não é diferente. Muito antes de ocupar uma estante, receber uma capa ou ganhar um ISBN, eles já existiram como possibilidades. Antes do papel, da tinta e da impressão, houve uma ideia… Um personagem ainda sem nome, um cenário sem contornos, uma frase que insistia em nascer. Um livro não começa quando é escrito. Começa quando é imaginado!

Segundo o Dicionário Aurélio, imaginação é a faculdade de representar objetos pelo pensamento, bem como a capacidade de conceber e criar imagens novas. Talvez seja justamente essa capacidade que torna toda criação artística possível. Afinal, ninguém pinta uma tela sem antes visualizá-la. Nenhum escultor revela uma forma que não tenha enxergado na pedra. Nenhum compositor escreve uma melodia que ainda não tenha ouvido, mesmo que apenas em silêncio.

O livro também nasce assim…

A imaginação do escritor é, sem dúvida, o primeiro impulso. É dela que surgem histórias, personagens, conflitos e emoções. Mas ela não trabalha sozinha. À medida que a obra ganha forma, outras imaginações passam a dialogar com a do autor, ampliando aquilo que antes existia apenas como ideia.

O ilustrador imagina a emoção que uma cena pode transmitir. O designer imagina como a essência da obra pode ser traduzida em uma capa. O revisor imagina o texto em sua forma mais clara e precisa. O editor imagina como aquele livro encontrará seus leitores. E o diagramador imagina algo ainda mais silencioso: a experiência da leitura.

Quando alguém abre um livro, normalmente elogia a narrativa, a beleza das palavras ou a força da mensagem. Raramente percebe a largura das margens, a escolha da tipografia, o respiro entre os parágrafos, a posição de uma imagem ou o cuidado com que cada capítulo encontra seu lugar na página. No entanto, nada disso acontece por acaso.

Antes de existir na página, tudo precisou ser imaginado.

Entre todas as formas pelas quais a imaginação se materializa em um livro, talvez a diagramação seja a mais silenciosa — e, não por acaso, a arte pela qual me apaixonei. Seu maior mérito é justamente passar despercebida. Quando o projeto gráfico é bem construído, o leitor não pensa na composição da página; ele simplesmente mergulha na história. Parece natural. Parece inevitável. Mas essa naturalidade é fruto de escolhas cuidadosamente imaginadas.

Diagramar não é apenas distribuir textos e imagens. É antecipar o encontro entre o livro e quem o lerá. É imaginar o ritmo da leitura, o descanso do olhar, a harmonia entre os elementos, o silêncio dos espaços em branco. Cada decisão procura responder a uma pergunta invisível: como quero que o leitor sinta esta obra?

Talvez o diagramador se pareça com o maestro de uma orquestra. O público raramente volta seus olhos para ele, mas é sua sensibilidade que permite que instrumentos tão diferentes encontrem unidade. Da mesma forma, o diagramador não escreve a história, mas imagina como palavras, imagens e espaços podem dialogar para que a leitura aconteça de maneira fluida, quase imperceptível.

No fim das contas, a imaginação não pertence apenas ao escritor. Ela percorre todo o caminho que transforma uma ideia em livro. Está presente na criação da história, na escolha das imagens, no desenho da capa, na organização das páginas e, finalmente, no leitor, que completa a obra ao transformar palavras em cenas, vozes e emoções dentro da própria mente.

Talvez essa seja a maior beleza da literatura: um livro nunca é fruto da imaginação de uma única pessoa. Ele nasce da imaginação de muitos e só se completa na imaginação de quem o lê.

Porque, antes de um livro existir no mundo, ele já existia no lugar onde toda arte começa: a imaginação.


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Porque cada livro transforma um leitor. E cada leitor ajuda a transformar o mundo.


Autores e obras

[1]Katiúscia Bonfanti. Diagramadora e capista, formada em Design Gráfico pela UCG (atual PUC Goiás) em 2004. Foi na redação do extinto Diário da Manhã que teve seu primeiro contato com a diagramação e, mais tarde, entrou de vez no universo do design editorial. Já desenvolveu projetos gráficos para inúmeros livros e revistas, dos mais diversos gêneros. Neste texto, reflete sobre a imaginação como matéria-prima invisível de todo livro — inclusive daquela parte que raramente é notada, mas que ela ama fazer: dar forma silenciosa à experiência de leitura.
[2]imagem 9i:pgeditora58078477000170
[3] BORGES, Jorge Luis. A cegueira. In: BORGES, Jorge Luis. Sete Noites. Tradução de Benamira de Oliveira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[4] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da língua portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010.

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