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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Alfabeto Literário - Q

 

Alfabeto Literário - Q

  Q — Questionamento:  Perguntas que abrem caminhos


A inutilidade desprovida de questionamentos

Rodriana Costa


    Sócrates acordou após o efeito da cicuta. Jaz um sábio. Assim, a viagem iniciou esgotando-lhe não só o corpo como a alma imortal. Atravessou o tempo, perpassou alguns séculos, chegou a lugares contestáveis: foi ao céu, visitou o purgatório, desceu ao inferno incrédulo, quis ficar no limbo, mas divagou no tempo. Sentia-se cheio de dúvidas, revia eras distintas, vasculhava seus próprios pensamentos, refletia incessantemente; concluindo que não sabia nada e confiante em encontrar algum ser humano mais sábio que um dia fora. Seguia sua missão que consistia em contestar o oráculo de Delfos. Acusá-lo-ia de mentiroso! Mas quem é o homem mais sábio de todos?

    Buscava a sabedoria em algum ser humano depois de acompanhar o desenvolvimento das sociedades... Ressignificava suas concepções e instaurava um problema filosófico: Haverá algum ser mais ou tão sábio quanto Sócrates?

    Desembarcou em uma estação de muitas informações. Uma enxurrada de textos, despencou diante de seus olhos. Assim que ouviu sobre a existência de um oráculo veloz a quem tudo respondia, teve impressão de que as pessoas do mundo ocidental tinham mais acesso ao conhecimento. Meio espirituoso, se dedicaria à sua busca. Encontraria o tal sábio. Esse seria dotado de humildade para reconhecer o conhecimento que advém da reflexão, que, por sua vez, precede dos questionamentos, ou seja, não se reconheceria como tal, nem se transverteria em falsa modéstia.

    Desde o oráculo, em tempos de filosofia em pórticos e jardins atenienses, o ser humano se respaldava em um conhecimento vindo de um ser imagético supremo que profetizava e atraia bons ou maus presságios. 

    Agora, Sócrates esbarrava em parafernálias tecnológicas, da automação às Inteligências denominadas por alguns de Superinteligência, sugerindo à sua superioridade mecânica ao intelecto humano. Deveria haver controvérsias! O filósofo jamais conceberia a existência de um cérebro de metal. Possível sugadores de cérebros humanos!

    Sócrates, em sua defesa diante de sua condenação à própria morte, tentando encontrar algum ser humano questionador e desprovido de superegos em diferentes âmbitos, deveria considerar a novidade a qual todos estavam rendidos. Súditos de uma moral encruada. Ele, o filósofo, argumento diante de todos no tribunal:

    “Querofonte foi a Delfos e ousou perguntar ao oráculo se havia alguém mais sábio do que eu [...] A sacerdotisa Pítia respondeu que não havia homem mais sábio”. 

    Na estação XIX, verificaria a atuação feminina, valentes amazonas, reivindicam o seu protagonismo. Ficara absurdamente encantado. Motivou-se buscar nas praças, homens e mulheres que questionam a vida e suas certezas, mas se decepcionava a cada poeta questionado, a cada governante consultado. Não encontrou artesãos como os de outras estações, mas havia oradores, um tanto presunçosos: “todos trágicos, ditirâmbicos e de todos os tipos”.

     Ao perceber que as praças de outrora estavam dentro de aparelhos acoplados em corpos humanos, que podiam ser acessados de qualquer lugar do mundo, a qualquer momento, Sócrates não se fez rogado diante de uma estação fadada ao fracasso. Não ofereceria clemência ou piedade a estação anestesiada.

    Diferentemente do oráculo de outrora, esse podia ser perguntado sem nenhum ritual ou preparo prévio. Assim, Sócrates se regozijou com a satisfação da possibilidade de encontrar um sábio dentre todos os habitantes do planeta.

    Deve apertar as teclas do aparelho de busca ou somente falar o que deseja saber. 

    Pergunte e haverá respostas rapidamente. Essa é uma era da rapidez. De tendências, em que fora dessas praças digitais, ninguém percebe ou é perturbado pelo outro. Disse um homem resguardado em sua própria menoridade.

    Mas para o filósofo, nada lhe interessaria, se não fosse para a aquisição de sabedoria. Durante a sua viagem até a estação XXI, se rendeu, contemplativo, à estação XX, com a obra O idiota, de Dostoievsky, sem titubear, elencou a condição do ser humano como um tema filosófico. O príncipe Míchkin, verdadeiramente, sabe e não se diz saber, mas se questiona a todo tempo. Suspeitava ser esse um sábio.

     Da mesma maneira, de olhar estreito, observava como a sociedade mudou seus costumes, seus comportamentos, suas vestimentas, mas ainda assim, continuava sendo a mesma, com exceção da estação XXI. Assim, examinaria O mentecapto, de Fernando Sabino, como uma figura sábia que não desprezava o questionamento e nem se submetia aos aparelhos ideológicos do discurso.

     Esses, pensava o filósofo, são sujeitos que não se curvam à tendência de “inteligência”. Que não terceirizam seus intelectos provenientes de suas próprias capacidades de pensar, refletir e criar.

    Absorto, na estação XXI, tentava compreender o mundo dividido entre mentes de carne e mentes de metal. Escutava confuso: é feito por humanos de verdade? Esse é humano? Tem garantia de ter sido produzido por humanos? É real ou artificial? Tais questionamentos, colocavam em confronto tudo que havia pensado e ensinado sobre humanidade. Sabia que definitivamente, nada sabia.

    Então pediu para o homem que continuava distraído, de olhos fixados na tela reluzente do tal oráculo, para consultar quem era o mais sábio de todos os tempos. 

    “Não existe um único homem considerado o mais sábio de todos os tempos, pois a resposta depende da tradição religiosa, filosófica ou cultural que você consulta.”

    Satisfeito com a resposta, desejou voltar ao tempo em que foi levado ao tribunal para reafirmar sua tese inicial: de que não poderia ser o homem mais sábio. E constataria que os atenienses ganhariam, de fato, uma imensa e duradoura má fama por terem condenado à morte o sábio Sócrates. O julgamento e a execução por envenenamento (cicuta) em 399 a.C. transformaram-se historicamente no maior símbolo dos perigos da intolerância ideológica e dos excessos da própria democracia.

Então, se sentindo vingado e cheio de razão, desejou nunca ter saído do limbo! 


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Autores e obras
[1] Rodriana Costa. Escritora, entusiasta das artes. Escreve contos e crônicas publicados em sites, coletâneas e livros. Destaca-se “Minha amiga Esmeralda”, conto que compôs a “Antologia Mulheres em seus Destinos”, publicada em Cabo Verde. Em 2022, publicou o livro “Aromas e Memórias: contos” e em 2025, o livro de contos “Casulo da Borboleta”. É doutora em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB/Universtià de Pescara (Itália). É Mestre em Linguística e Língua Portuguesa e graduada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente, é docente no ensino superior, coordena e atua em projetos literários e Vice-presidente da UBE-seção Goiás. Site da autora:
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