Crônica
A literatura que nasce do cotidiano.
Alfabeto Literário - C
Na cozinha, a pilha de louça, consequência da reunião da noite anterior para festejar a vitória do Brasil sobre o Japão, era minha. Meu palpite venceu: 2x1. Placar de sufoco, mas na Copa do Mundo todos querem vencer. A louça estava lá, a minha espera, grandes panelas foscas e sujas, uma dezena de pratos e duas de copos, mais talheres. Como podiam os alumínios estarem tão apagados? Na época em que eu tinha mais tempo, as panelas brilhavam sem ajuda de limpa alumínio, e, ainda, lembro de minha avó arear com areia e sabão de bolas as grandes panelas. A secar reluzentes ao sol. Lembro de doer-me as vistas.
Enquanto, areava a panela, com limpa alumínio e Bombril, uma espuma cinza e espessa surgia com o atrito da esponja. Uma nódoa veio à memória: a menina de chinelos e uma pinta no dedão do pé. Qual era mesmo o nome dela? No tempo de escola, ela andava para lá e para cá marcada de espuma cinza, esquecida no antebraço. Provavelmente, areava as panelas antes de ir à escola. Pensei na tal tarefa doméstica enquanto me abdicava de escrever algumas linhas para a publicação na coluna do dia seguinte, mas a louça não podia esperar. Era dia de home office e eu ainda não havia aberto o computador.
Lavaria a louça o mais rápido possível a fim de começar a trabalhar na produção da crônica: um gênero textual do cotidiano. O que seria mais trivial do que lavar louça e se perder em pensamentos?
O que o tempo teve a ver com as nossas tarefas do dia a dia? Agora, não é necessário arear. As panelas são feitas de outros materiais que facilitam a lavagem. Não se usa alumínio batido como antigamente. Existem outros tipos, mais econômicos ou saudáveis. Dizem que o alumínio é proibido em muitos países do mundo. Esquivei da ideia de contabilizar a quantidade dessa substância em meu organismo, absorvida nos meus quarenta e poucos anos de vida.
Voltei a pensar na crônica, agora esfregando os talheres. A crônica consiste em narrativas sutis. Não há, necessariamente, uma moral da história. Para ser honesta, moralidade é um termo perdido na sociedade contemporânea, fadado aos moralistas sem moral ... mas se ela existe, nesse gênero textual, não deve ser a protagonista.
Crônica consiste em uma situação paralisante que deve se remeter ao cotidiano... reflexiva imbuída de estar, numa “verdade do cronista”. Parece-me um conceito justo, mas falho ou questionável se comparada a outros gêneros. Suspeito que a crônica seja prima-irmã do conto. Sua elaboração poderia consistir no esforço de escrever criticamente sem ser explícito, evasivo, como em uma situação do cotidiano observado pelo seu autor. Uma narrativa que desperta um olhar reflexivo sobre um tema que se transveste-se de trivial.
Julgo ser um perigo escrever algo sobre o cotidiano que está imbricado em nós... A crônica consiste em narrativas sutis. Sem moral, por gentileza, insisto ... se há alguma deve ser resgatada pelo leitor ou leitora. Cabe a ele ou ela arrancá-la e lançá-la para dentro de si, se fazer introspectivo a partir da realidade massivamente comum.
Há a crônica jornalística. Essa possui uma função ainda mais social e ousada. Não compliquemos, por isso, pensaremos na crônica sem definirmos o âmbito discursivo, ao menos por enquanto - Dialogo com a minha consciência. A referida instância discursiva, aberta ao público maior, em que populares a leem no jornal, se divertem com a narrativa sem perceber que cada linha esfrega em sua cara um acontecimento corriqueiro, às vezes, íntimo, nostálgico ou memorável ao seu cronista, com um propósito astuto, esporadicamente, não capturado.
Veio-me Marcuschi que assegura todos os gêneros textuais a partir da sua forma e função. Assim, aplicando à crônica, tendo a pensar que: o primeiro se molda na narrativa curta sobre um enredo acerca do cotidiano que pressupõe um tema relevante sob o ponto de vista de quem a elabora; enquanto o segundo se relaciona com a finalidade de o leitor apreciar um enredo desvelando um tema crítico-reflexivo, sem lhe ser empurrado goela abaixo, feito pílulas amargas que se devem engolir rapidamente antes que a saliva revele seu gosto amargo.
É certo que não tenho a pretensão de definir ou de conceituar tal gênero. Aprecio escrevê-lo e lê-lo.
O que está posto, aqui, consiste em uma reflexão ou tentativa de elaboração. Julgo ser difícil exercer a tarefa de crítico ou teórico literário. Para esse momento, costumo citar a escritora Lêda Selma que traduz a beleza de escrever narrativas curtas, trazendo uma resolução para a questão teórica-literária discutida. Ela cunhou o termo Cronto, sem aspas mesmo: ocorre quando não é possível a distinção entre conto e crônica. Lêda Selma escreve maravilhosamente esse novo gênero literário, assim como Clarice Lispector já o fazia, mas foi Lêda quem ousou resolver tal impasse teórico-conceitual, ainda em discussão por muitos estudiosos da literatura e linguística.
Percebi, velozmente, a finalização da louça que agora precede a limpeza da pia... Assim que terminar de secar a cuba, me dedicarei às incumbências da escrita da crônica: uma narrativa do cotidiano, como se o conto também assim não o fosse.
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[1] Rodriana Costa. Escritora, entusiasta das artes. Escreve contos e crônicas publicados em sites, coletâneas e livros. Destaca-se “Minha amiga Esmeralda”, conto que compôs a “Antologia Mulheres em seus Destinos”, publicada em Cabo Verde. Em 2022, publicou o livro “Aromas e Memórias: contos” e em 2025, o livro de contos “Casulo da Borboleta”. É doutora em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB/Universtià de Pescara (Itália). É Mestre em Linguística e Língua Portuguesa e graduada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente, é docente no ensino superior, coordena e atua em projetos literários e Vice-presidente da UBE-seção Goiás. Site da autora:

