Alfabeto Literário - J
A Jornada do Escritor: a palavra perante o tribunal da História
Escrever é muito mais do que dominar a linguagem. É assumir um compromisso com a verdade, a beleza e a justiça. O escritor não apenas registra acontecimentos: interpreta seu tempo, denuncia injustiças, preserva a memória e semeia esperança. Sua matéria-prima é a palavra, mas sua verdadeira missão é formar consciências, pois toda obra publicada passa a pertencer não apenas ao autor, mas à História.
Hegel ensinou que “a História do mundo é o tribunal do mundo”. Diante desse tribunal invisível, escritores e historiadores comparecem como testemunhas permanentes. A historiografia grava na pedra os acontecimentos; a literatura faz florescer sobre ela a sensibilidade humana. A História sem a poesia torna-se fria como o mármore; a poesia sem a História perde suas raízes. São duas asas da mesma memória: uma preserva os fatos, a outra lhes confere significado.
Rui Barbosa sustentava que os atos humanos jamais escapam ao julgamento da posteridade. Em A Queda do Império e em seus escritos políticos, demonstra que o tempo desfaz as aparências e restitui à História a missão de julgar governantes, ideias e instituições. O escritor, por isso, não escreve apenas para seus contemporâneos, mas para esse tribunal permanente onde as palavras sobrevivem aos próprios autores.
Jean-Paul Sartre afirmou, em Que é a Literatura?, que escrever é agir. Albert Camus, ao receber o Prêmio Nobel, recordou que o escritor deve servir aos que sofrem a História, e não aos que exercem o poder. Escrever é uma escolha ética. Um livro pode despertar consciências, inspirar reformas, impedir o esquecimento e transformar uma sociedade.
No Brasil, essa missão encontrou intérpretes extraordinários. Machado de Assis revelou as contradições da alma nacional; Euclides da Cunha denunciou o abandono de Canudos; Lima Barreto combateu o preconceito; Graciliano Ramos deu voz aos esquecidos; Guimarães Rosa universalizou o sertão; Clarice Lispector iluminou a interioridade humana; Cora Coralina revelou a grandeza da simplicidade; Carolina Maria de Jesus rompeu o silêncio da pobreza; Bernardo Élis eternizou o Brasil Central.
Também a poesia ajudou a construir a consciência nacional. Castro Alves transformou seus versos em um clamor contra a escravidão; Cruz e Sousa fez da dor uma afirmação da dignidade humana; Carlos Drummond de Andrade refletiu sobre a condição do homem; Cecília Meireles cantou a permanência dos valores; Thiago de Mello proclamou a liberdade como dever da consciência. A poesia denuncia para que a barbárie nunca pareça normal e para que novos horrores jamais encontrem o silêncio como aliado.
Antonio Candido ensinou que a literatura constitui um direito humano, indispensável à formação da sensibilidade e da cidadania. Joseph Campbell mostrou que toda narrativa traduz a busca de sentido; Julia Cameron compreendeu a escrita como coragem criadora; Stephen King recordou que talento exige disciplina; Umberto Eco demonstrou que todo livro continua vivendo na interpretação de seus leitores. Friedrich Nietzsche, ao anunciar a crise dos valores, encontrou na arte uma poderosa afirmação da existência e abriu novas reflexões sobre o sentido da vida.
Como escreveu Oswaldo Montenegro no poema “Metade”, “Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela mesma não saiba.” A cultura sempre foi guardiã da liberdade e denunciante dos abusos. Entre a pena do historiador e a lira do poeta, a humanidade escreve sua própria biografia. Ambos comparecem perante o tribunal da História levando não apenas os fatos, mas também seu significado, para que a verdade jamais caminhe sem a beleza, nem a justiça sem a esperança. Escrever é semear consciência; publicar é assumir responsabilidade perante o tempo.
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Autores e obras
[1] Abílio Wolney Aires Neto — Juiz de Direito, professor, mestre
pela PUC-GO e doutorando em Direito Constitucional pelo IDP/Brasília. Autor de
18 obras publicadas. Graduando em Filosofia, História e Jornalismo. Membro da
Academia Goiana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, do
Instituto Bernardo Élis, da União Brasileira de Escritores e da Academia
Goianiense de Letras.
[2] Imagem
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[3] HEGEL, Georg Wilhelm
Friedrich. Princípios da filosofia do direito. São Paulo: Martins
Fontes, 1997.
[4] BARBOSA, Rui. Queda
do Império: Diário de Notícias. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e
Saúde; Casa de Rui Barbosa, 1947. v. 16, t. 1. (Obras completas de Rui
Barbosa).
[5] BARBOSA, Rui. O
adeus da Academia a Machado de Assis. Rio de Janeiro: Academia Brasileira
de Letras, 30 set. 1908.
[6] SARTRE, Jean-Paul. Que
é a literatura? 3. ed. São Paulo: Ática, 2004.
[7] CAMUS, Albert. Banquet
speech. Stockholm: Nobel Prize, 10 dez. 1957.
[8] CANDIDO, Antonio. O
direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 5. ed. Rio
de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011. p. 171–193.
[9] CAMPBELL, Joseph. The
hero with a thousand faces. Novato: New World Library, 2008.
[10] CAMERON, Julia. The
artist’s way: a spiritual path to higher creativity. New York: J. P.
Tarcher/Putnam, 2002.
[11] KING, Stephen. On
writing: a memoir of the craft. New York: Scribner, 2000.
[12] ECO, Umberto. Obra
aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São Paulo:
Perspectiva, 2015.
[13] NIETZSCHE, Friedrich.
O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia
das Letras, 2007.
[14] MONTENEGRO, Oswaldo. Metade. In: MONTENEGRO, Oswaldo. João sem nome. 1974. Poema publicado originalmente no libreto da peça.
