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domingo, 26 de julho de 2026

Alfabeto Literário - F

 

Alfabeto Literário - F 

FICÇÃO – O MUNDO INVENTADO

Vozes da literatura feminina - Brasil


 Conhecer para melhor entender, e assim escrever, 
comunicar e vivenciar um mundo melhor.

Por Patrícia.Gabriel

 

O verbete em si aceita ser criação imaginária; invenção, fantasia; gênero literário baseado na imaginação, cujos personagens, fatos e situações podem ou não ter relação com a realidade[1]. É ato ou efeito de fingir; criação imaginária; invenção literária em prosa ou verso que apresenta acontecimentos e personagens imaginários[2]. Se formos às origens do Latim fictio, derivado do verbo fingere, que significa moldar, formar ou criar, reforçando a ideia de construção imaginativa da realidade [3].

A ficção é uma das mais importantes manifestações da criatividade humana. Por meio dela, autores e autoras constroem universos capazes de transcender os limites da experiência cotidiana, criando personagens, cenários e acontecimentos que, embora imaginários, que podem ou não podem dialogar com a realidade. Mais do que simples entretenimento, a ficção constitui uma poderosa ferramenta de reflexão sobre a condição humana, os conflitos sociais, os sentimentos e os valores que moldam a existência.

Das narrativas míticas da Antiguidade aos nano contos contemporâneos, a ficção desempenha papel fundamental na preservação da memória cultural e na transmissão de conhecimentos. Ao inventar mundos possíveis, a literatura permite ao leitor experimentar outras perspectivas, desenvolver a empatia e ampliar sua compreensão da sociedade. Como observa Antônio Candido[4], a literatura atende a uma necessidade universal de fabulação, contribuindo para a formação humana e para o exercício da imaginação.

Brasil, brasileiro, Brasil Goiano, Brasil Mulher, escritoras nossas que deram vida nova à ficção:

Clarice Lispector  privilegia os movimentos da consciência e os conflitos interiores das personagens. Obras como A Hora da Estrela[5] e A Paixão Segundo G.H.[6] - a complexidade da existência humana, uma aventura dentro da subjetividade.

Lygia Fagundes Telles, a profundidade psicológica e a complexidade das relações humanas. Em obras como As Meninas[7] e Antes do Baile Verde[8], memória, identidade, liberdade e transformação, com personagens que permanecem vivas na imaginação dos leitores.

Conceição Evaristo incorpora as vivências da população negra e das mulheres periféricas. Em obras como Ponciá Vicêncio[9]e Olhos d’Água[10] a escrevivência demonstra que a ficção pode ser simultaneamente arte, memória e instrumento de resistência.

Nélida Piñon trouxe consigo a tradição histórica e mítica, explorou temas relacionados à imigração, à memória e à identidade cultural brasileira. A República dos Sonhos[11]e a formação da sociedade brasileira.

Ana Maria Gonçalves[12], Adriana Lisboa[13] e Martha Batalha[14] ampliaram os horizontes da ficção nacional com obras abordam raça, gênero, pertencimento e desigualdade social. A literatura provando-se capaz de apresentações críticas no mundo contemporâneo.

Rodriana Costa [15], autora do livro de contos Casulo da Borboleta reúne narrativas que exploram sentimentos, conflitos e transformações humanas, utilizando a metáfora do casulo como representação dos processos de mudança vividos pelos personagens. Nas palavras dela Mais ao casulo que às borboletas. Temas como solidão, escolhas, perdas e amadurecimento para mostrar a ficção pode transformar experiências cotidianas em narrativas significativas à complexidade da existência humana.

Jane Costa [16] em O Mundo Secreto de Álvaro. a importância da ficção para a visualização da realidade a infância como momento fundamental na formação de leitores desde a infância, e no aprendizado de valores que formarão consciências livres de discriminação e preconceito – Conhecer para melhor entender, e assim escrever, comunicar e vivenciar um mundo melhor.

A ficção se revela mais do que apenas da fantasia. Constitui-se, pois, em um encontro da imaginação e da realidade, propiciando ao leitor compreender melhor a si, ao outro e ao mundo que o cerca.

Na literatura brasileira feminina, esse mundo inventado ganha vozes múltiplas, perspectivas diversas e novas formas de narrar a experiência humana. Das reflexões existenciais de Clarice Lispector à escrevivência de Conceição Evaristo; das narrativas psicológicas de Lygia Fagundes Telles às histórias contemporâneas de Rodriana Costa e Jane Costa, a ficção reafirma seu papel como instrumento de conhecimento, sensibilidade, transformação e liberdade. Ler ficção é exercitar a capacidade humana de imaginar para compreender, criar para resistir e contar histórias para permanecer.


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Porque cada livro transforma um leitor. E cada leitor ajuda a transformar o mundo.



Autores e obras

[1]. Patrícia.Gabriel - Fundadora e editora-chefe da PG Editora. É escritora, romancista, poeta, ghostwriter. Atua na criação de obras literárias, biografias e projetos editoriais, unindo técnica, sensibilidade e excelência textual. Possui formações literárias e editoriais pela Universidade do Livro/Unesp, Casa Educação e pela Harvard University, no curso Masterpieces of World Literature. Também desenvolve consultoria editorial, revisão profissional de textos e ações de incentivo à leitura. É membro efetivo da União Brasileira de Escritores - seção Goiás UBE(GO); membro correspondente da Academia Goianiense de Letras AGnL. Site da autora:
[2] imagem 6f:pgeditora58078477000170
[3] MICHAELIS. *Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa*. São Paulo: Melhoramentos, 2015.
[4] [5] HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. *Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa*. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
[6] CANDIDO, Antônio. **O direito à literatura**. In: CANDIDO, Antônio. *Vários escritos*. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2004. p. 169-191. Revista Prosa Verso e Arte.
[7] LISPECTOR, Clarice. *A Hora da Estrela*. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
[8] LISPECTOR, Clarice. *A Paixão Segundo G.H.* Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
[9] TELLES, Lygia Fagundes. *As Meninas*. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2009.
[10] TELLES, Lygia Fagundes. *Antes do Baile Verde*. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
[11] EVARISTO, Conceição. *Ponciá Vicêncio*. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.
[12] EVARISTO, Conceição. *Olhos d'Água*. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
[13] PIÑON, Nélida. *A República dos Sonhos*. Rio de Janeiro: Record, 1984.
[14] GONÇALVES, Ana Maria. *Um Defeito de Cor*. Rio de Janeiro: Record, 2006.
[15] LISBOA, Adriana. *Sinfonia em Branco*. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
[16] BATALHA, Martha. *A Vida Invisível de Eurídice Gusmão*. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
[17]COSTA, Rodriana. *Casulo da Borboleta*. Goiânia, 2025.
[18]COSTA, Jane. *O Mundo Secreto de Álvaro*. Goiânia, 2025

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Alfabeto Literário - C

 

Crônica

A literatura que nasce do cotidiano.

Alfabeto Literário - C


    Na cozinha, a pilha de louça, consequência da reunião da noite anterior para festejar a vitória do Brasil sobre o Japão, era minha. Meu palpite venceu: 2x1. Placar de sufoco, mas na Copa do Mundo todos querem vencer. A louça estava lá, a minha espera, grandes panelas foscas e sujas, uma dezena de pratos e duas de copos, mais talheres. Como podiam os alumínios estarem tão apagados? Na época em que eu tinha mais tempo, as panelas brilhavam sem ajuda de limpa alumínio, e, ainda, lembro de minha avó arear com areia e sabão de bolas as grandes panelas. A secar reluzentes ao sol. Lembro de doer-me as vistas.

    Enquanto, areava a panela, com limpa alumínio e Bombril, uma espuma cinza e espessa surgia com o atrito da esponja. Uma nódoa veio à memória: a menina de chinelos e uma pinta no dedão do pé. Qual era mesmo o nome dela?  No tempo de escola, ela andava para lá e para cá marcada de espuma cinza, esquecida no antebraço. Provavelmente, areava as panelas antes de ir à escola. Pensei na tal tarefa doméstica enquanto me abdicava de escrever algumas linhas para a publicação na coluna do dia seguinte, mas a louça não podia esperar. Era dia de home office e eu ainda não havia aberto o computador.

    Lavaria a louça o mais rápido possível a fim de começar a trabalhar na produção da crônica: um gênero textual do cotidiano. O que seria mais trivial do que lavar louça e se perder em pensamentos?

    O que o tempo teve a ver com as nossas tarefas do dia a dia? Agora, não é necessário arear. As panelas são feitas de outros materiais que facilitam a lavagem. Não se usa alumínio batido como antigamente. Existem outros tipos, mais econômicos ou saudáveis. Dizem que o alumínio é proibido em muitos países do mundo. Esquivei da ideia de contabilizar a quantidade dessa substância em meu organismo, absorvida nos meus quarenta e poucos anos de vida.

    Voltei a pensar na crônica, agora esfregando os talheres. A crônica consiste em narrativas sutis. Não há, necessariamente, uma moral da história. Para ser honesta, moralidade é um termo perdido na sociedade contemporânea, fadado aos moralistas sem moral ... mas se ela existe, nesse gênero textual, não deve ser a protagonista.

    Crônica consiste em uma situação paralisante que deve se remeter ao cotidiano... reflexiva imbuída de estar, numa “verdade do cronista”. Parece-me um conceito justo, mas falho ou questionável se comparada a outros gêneros. Suspeito que a crônica seja prima-irmã do conto.  Sua elaboração poderia consistir no esforço de escrever criticamente sem ser explícito, evasivo, como em uma situação do cotidiano observado pelo seu autor. Uma narrativa que desperta um olhar reflexivo sobre um tema que se transveste-se de trivial. 

    Julgo ser um perigo escrever algo sobre o cotidiano que está imbricado em nós... A crônica consiste em narrativas sutis. Sem moral, por gentileza, insisto ... se há alguma deve ser resgatada pelo leitor ou leitora. Cabe a ele ou ela arrancá-la e lançá-la para dentro de si, se fazer introspectivo a partir da realidade massivamente comum.

    Há a crônica jornalística. Essa possui uma função ainda mais social e ousada. Não compliquemos, por isso, pensaremos na crônica sem definirmos o âmbito discursivo, ao menos por enquanto - Dialogo com a minha consciência. A referida instância discursiva, aberta ao público maior, em que populares a leem no jornal, se divertem com a narrativa sem perceber que cada linha esfrega em sua cara um acontecimento corriqueiro, às vezes, íntimo, nostálgico ou memorável ao seu cronista, com um propósito astuto, esporadicamente, não capturado.

    Veio-me Marcuschi que assegura todos os gêneros textuais a partir da sua forma e função. Assim, aplicando à crônica, tendo a pensar que: o primeiro se molda na narrativa curta sobre um enredo acerca do cotidiano que pressupõe um tema relevante sob o ponto de vista de quem a elabora; enquanto o segundo se relaciona com a finalidade de o leitor apreciar um enredo desvelando um tema crítico-reflexivo, sem lhe ser empurrado goela abaixo, feito pílulas amargas que se devem engolir rapidamente antes que a saliva revele seu gosto amargo.

    É certo que não tenho a pretensão de definir ou de conceituar tal gênero. Aprecio escrevê-lo e lê-lo.

    O que está posto, aqui, consiste em uma reflexão ou tentativa de elaboração. Julgo ser difícil exercer a tarefa de crítico ou teórico literário. Para esse momento, costumo citar a escritora Lêda Selma que traduz a beleza de escrever narrativas curtas, trazendo uma resolução para a questão teórica-literária discutida. Ela cunhou o termo Cronto, sem aspas mesmo: ocorre quando não é possível a distinção entre conto e crônica. Lêda Selma escreve maravilhosamente esse novo gênero literário, assim como Clarice Lispector já o fazia, mas foi Lêda quem ousou resolver tal impasse teórico-conceitual, ainda em discussão por muitos estudiosos da literatura e linguística. 

    Percebi, velozmente, a finalização da louça que agora precede a limpeza da pia... Assim que terminar de secar a cuba, me dedicarei às incumbências da escrita da crônica: uma narrativa do cotidiano, como se o conto também assim não o fosse.




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Autores e obras
[1] Rodriana Costa. Escritora, entusiasta das artes. Escreve contos e crônicas publicados em sites, coletâneas e livros. Destaca-se “Minha amiga Esmeralda”, conto que compôs a “Antologia Mulheres em seus Destinos”, publicada em Cabo Verde. Em 2022, publicou o livro “Aromas e Memórias: contos” e em 2025, o livro de contos “Casulo da Borboleta”. É doutora em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB/Universtià de Pescara (Itália). É Mestre em Linguística e Língua Portuguesa e graduada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente, é docente no ensino superior, coordena e atua em projetos literários e Vice-presidente da UBE-seção Goiás. Site da autora:
[2] imagem 2c:pgeditora58078477000170

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Alfabeto Literário - B

BIBLIOGRAFIA

As leituras que formam um escritor

Alfabeto Literário - B




       Ler e escrever – escrever e ler. Ler sem escrever, até pode ser, mas escrever sem ler – complica! Costuma-se dizer que todo escritor é um leitor, verdade sim, no entanto, é uma resposta incompleta.

Os livros são indispensáveis, sejam obras-primas da literatura mundial e nacional, dos clássicos aos ultramodernos (já leu um nano-conto?)

Para os escritores, ler é mais amplo, vai além daquilo que já foi escrito (papiro, papel, on-line). Escritores leem personalidades, humores, cenários, sociedades, situações, ritmos versos e controvérsias, por isso nem toda leitura que forma um escritor está nos livros. Tais leituras estão nas suas próprias vidas e nas histórias que viveram, vivenciaram, estudaram, e até mesmo ouviram falar. É o que dá aos livros sua característica singular – através dos livros é permitido experienciar outra vida, outras histórias, viajar o mundo viajar no tempo e no espaço (passado, presente e futuro) realidades, ficções e tudo quanto mais e maior puder surgir da imaginação e do pensamento humanos.

Ao abrir um livro, o leitor aceita um convite para enxergar através dos olhos de outra pessoa, e.ao mesmo tempo, projetar seus próprio olhar enquanto lê nas linhas e entrelinhas do autor. Talvez não haja experiências humanas que ofereçam um exercício tão profundo de deslocamento. Talvez seja justamente por isso que a leitura esteja na base da formação de tantos escritores.

Imaginação, percepção!

Técnicas de escrita e estilo podem ser aprendidas e copiadas, é assim que os agentes literários de IA escrevem, mas creio que nunca serão capazes de perceber, a literatura vai, então, além, audaciosamente onde a mente puder nos levar.

Perceber aquilo que passa despercebido; perceber a solidão escondida atrás de uma conversa comum; perceber a coragem que existe em pequenos gestos, perceber que cada pessoa carrega uma história que não pode ser resumida a uma aparência, uma opinião ou uma circunstância.

A bibliografia de um autor contemporâneo não se mede apenas pela estante dos livros já lidos, restam os não lidos, as percepções, as experiências, as inquietações provocadas pelas perguntas uma hora respondidas e outras ainda incógnitas.

        O escritor, autor da escrita que constrói e desconstrói, aquele que assume seu papel social e propõe novos valores, novas crenças... que transforma o mundo feio em rara beleza, ou mostra o horror na belezura, que faz ciência e traz vida ou destruição.



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Autores e Obras
[1]. Patrícia.Gabriel - Fundadora e editora-chefe da PG Editora. É escritora, romancista, poeta, ghostwriter. Atua na criação de obras literárias, biografias e projetos editoriais, unindo técnica, sensibilidade e excelência textual. Possui formações literárias e editoriais pela Universidade do Livro/Unesp, Casa Educação e pela Harvard University, no curso Masterpieces of World Literature. Também desenvolve consultoria editorial, revisão profissional de textos e ações de incentivo à leitura. É membro efetivo da União Brasileira de Escritores - seção Goiás UBE(GO); membro correspondente da Academia Goianiense de Letras AGnL.
[2] imagem 2b:pgeditora58078477000170

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